quinta-feira, 25 de junho de 2009

Agostinho Neto


Faz hoje anos que em 1960 o subdirector da PIDE São José Lopes foi pessoalmente a Luanda prender Agostinho Neto, no seu consultório, sendo mantido preso durante mais de dois anos. Já anteriormente Agostinho Neto sofrera várias prisões, designadamente a que ocorreu entre 9 de Fevereiro de 1955 e 12 de Junho de 1957. Médico angolano, formado pela Universidade de Lisboa, fundador do MPLA e primeiro presidente de Angola após o 25 de Abril, Agostinho Neto era já à altura um prestigiado combatente e dirigente das guerras de libertação dos povos africanos de expressão portuguesa, principalmente do povo angolano, pelo que a sua prisão desencadeou uma vaga internacional de protestos, em que se envolveram intelectuais de renome universal como Jean-Paul Sartre, André Mauriac, Aragon, Simone de Beauvoir e muitos outros, protestos que tiveram eco mundial e criaram sérias dificuldades ao governo fascista de Salazar. Também consagrado poeta, serviu-se da poesia para transmitir a "sagrada esperança" na vitória dos fracos sobre os fortes, dos humilhados e ofendidos sobre os orgulhosos e arrogantes detentores do poder colonial. Ao recordarmos a efeméride do acto fascista sobre uma figura maior da luta de libertação do povo angolano, deixamos a lembrança do seu belíssimo poema "Havemos de Voltar", que a história veio a confirmar:

Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

Às nossas terras
vermelhas do café
brancas do algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar

Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
à Angola libertada
Angola independente.

(Cadeia do Aljube de Lisboa, Outubro de 1960)

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